quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Boff explica a “ecologia integral” da encíclica


“Laudato Si” denuncia “submissão da Política à Tecnologia e Finança”, enxerga-a como raiz da crise ambiental e social e sustenta: única alternativa é mobilização. Por isso, defensores do sistema querem silenciá-la
Por Leonardo Boff, com apresentação de Ivo Lesbaupin
No dia 18 de junho, o Papa Francisco deu a conhecer sua encíclica “Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum”. Anteriormente à sua publicação, o texto tinha sofrido pressões de setores conservadores, especialmente nos Estados Unidos, para evitar certos temas. De nada adiantou, sua encíclica enfrenta a temática do cuidado da Mãe Terra sem medir palavras quanto às causas da degradação ambiental do planeta. Depois de fazer uma síntese das principais conclusões científicas sobre as condições ambientais, o aquecimento global, as mudanças climáticas, ele aborda “a raiz humana da crise ecológica” que ele designa como “o paradigma tecnocrático dominante”.
“O paradigma tecnocrático tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política. A economia assume todo o desenvolvimento tecnológico em função do lucro, sem prestar atenção a eventuais consequências negativas para o ser humano. A finança sufoca a economia real” (n. 109). Critica a ideia de que “as forças invisíveis do mercado” sejam capazes de regular a economia assim como controlar a situação ambiental.
A causa principal é a atividade humana, nos dois últimos séculos, “particularmente agravado pelo modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis, que está no centro do sistema energético mundial” (n. 23). Enquanto mantivermos o atual modelo de produção e de consumo, não haverá solução.


Face à gravidade da situação que vivemos, o Papa denuncia a fraqueza da reação política internacional. “A submissão da política à tecnologia e à finança demonstra-se na falência das cúpulas mundiais sobre o meio ambiente. Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afetados os seus projetos” (n. 54).
Depois de mostrar que a pobreza e degradação ambiental têm uma mesma raiz, ele afirma: “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental. As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza” (n. 139).
O Papa tem uma clara postura de esperança. Ele conclama os cidadãos e cidadãs, a sociedade civil, a se mobilizar para exigir mudanças. Mostra transformações que já estão ocorrendo em diferentes lugares, experiências práticas que revelam uma outra postura.
Para Francisco, “o meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos” (n. 95). Ele propõe como solução uma “ecologia integral”, ambiental, econômica e social. “Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana” (n. 189). É preciso redefinir o desenvolvimento: para que apareçam novos modelos de progresso, precisamos de “converter o modelo de desenvolvimento global”, e “isto implica refletir responsavelmente “sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações”” (n. 194).
Vamos publicar a seguir artigos de diferentes autores que procuram aprofundar o sentido desta obra. O primeiro é o de Leonardo Boff. Fique com ele (Ivo Lesbaupin, editor da seção especial “Outro Desenvolvimento”).
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Antes de qualquer comentário vale enfatizar algumas singularidades da encíclica Laudato si, do Papa Francisco.
É a primeira vez que um Papa aborda o tema da ecologia no sentido de uma ecologia integral (portanto que vai além da ambiental) de forma tão completa. Grande surpresa: elabora o tema dentro do novo paradigma ecológico, coisa que nenhum documento oficial da ONU até hoje fez. Fundamental é seu discurso com os dados mais seguros das ciências da vida e da Terra. Lê os dados afetivamente (com a inteligência sensível ou cordial), pois discerne que por detrás deles se escondem dramas humanos e muito sofrimento também por parte da mãe Terra. A situação atual é grave, mas o Papa Francisco sempre encontra razões para a esperança e para a confiança de que o ser humano pode encontrar soluções viáveis. Honra os Papas que o antecederam, João Paulo II e Bento XVI, citando-os com frequência. E algo absolutamente novo: seu texto se inscreve dentro da colegialidade, pois valoriza as contribuições de dezenas de conferências episcopais do mundo inteiro que vão dos EUA, da Alemanha, do Brasil, da Patagonia-Camauhe até do Paraguai. Acolhe as contribuições de outros pensadores como os católicos Pierre Teilhard de Chardin, Romano Guardini, Dante Alighieri, de seu mestre argentino Juan Carlos Scannone, do protestante, Paul Ricoeur e do muçulmano sufi Ali Al-Khawwas. Por fim, os destinatários são todos os seres humanos, pois todos são habitantes da mesma casa comum (palavra muito usada pelo Papa) e padecem das mesmas ameaças.
O Papa Francisco não escreve na qualidade de Mestre e Doutor da fé mas como um Pastor zeloso que cuida da casa comum e de todos os seres, não só dos humanos, que habitam nela.
Um elemento merece ser ressaltado, pois revela a ”forma mentis” (a maneira de organizar seu pensamento) do Papa Francisco. Este é tributário da experiência pastoral e teológica das igrejas latino-americanas que à luz dos documentos do episcopado latinoamericano (CELAM) de Medellin (1968), de Puebla(1979) e de Aparecida (2007) fizeram uma opção pelos pobres contra a pobreza e em favor da libertação.
O texto e o tom da encíclica são típicos do Papa Francisco e da cultura ecológica que acumulou. Mas me dou conta de que também muitas expressões e modos de falar remetem ao que vem sendo pensado e escrito principalmente na América Latina. Os temas da “casa comum”, da “mãe Terra”, do“grito da Terra e do grito dos pobres”, do “cuidado”, da “interdependência entre todos os seres, “do valor intrínseco de cada ser”, dos “pobres e vulneráveis” da “mudança de paradigma” do “ser humano como Terra” que sente, pensa, ama e venera, da “ecologia integral” entre oturos, são recorrentes entre nós
A estrutura da encíclica obedece ao ritual metodológico usado por nossas igrejas e pela reflexão teológica ligada à prática de libertação, agora assumida e consagrada pelo Papa: ver, julgar, agir e celebrar.
Primeiramente, revela sua fonte de inspiração maior: São Francisco de Assis, chamado por ele de “exemplo por excelência de cuidado e de uma ecologia integral e que mostrou uma atenção especial aos pobres e abandonados”(n.10; 66).
E então começa com o ver: ”O que está acontecendo à nossa casa” (nn.17-61). Afirma o Papa :”basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma deterioração de nossa casa comum” (n.61). Nesta parte incorpora os dados mais consistentes com referência às mudanças climáticas (nn.20-22), à questão da água (n.27-31), à erosão da biodiversidade (nn.32-42), à deterioração da qualidade da vida humana e à degradação da vida social (nn.43-47), denucía a alta taxa de iniquidade planetária, afetando todos os âmbitos da vida (nn.48-52) sendo que as principais vítimas são os pobres (n. 48).
Nesta parte, traz uma frase que nos remete à reflexão feita na América Latina: ”Hoje não podemos desconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social que deve integrar a justiça nas discussões sobre o ambiente para escutar tanto ogrito da Tera quanto o grito dos pobres” (n.49). Logo a seguir acrescenta: ”gemidos da irmã Terra se unem aos gemidos dos abandonados deste mundo” (n.53). Isso é absolutamente coerente, pois logo no início diz que “nós somos Terra” (n.2; cf. Gn 2,7), bem na linha do grande cantor e poeta indígena argentino Athaulpa Yupanqui: ”o ser humano é Terra que caminha, que sente, que pensa e que ama”.
Condena a proposta de internacionalização da Amazônia que “apenas serviria aos interesses da multinacionais” (n.38). Há uma afirmação de grande vigor ético: ”é gravíssima iniquidade obter importantes benefícios fazendo pagar o resto da humanidade, presente e futura, os altíssimos custos da degradação ambiental” (n.36).
Com tristeza reconhece: ”nunca temos ofendido nossa casa comum como nos últimos dois séculos” (n.53). Face a esta ofensiva humana contra a mãe Terra que muitos cientistas denunciaram como a inauguração de uma nova era geológica -o antropoceno – lamenta a debilidade dos poderes deste mundo que, iludidos, “pensam que tudo pode continuar como está” como álibi para “manter seus hábitos autodestrutivos” (n.59) com “um comportamento que parece suicida” (n.55).
Prudente, reconhece a diversidade das opiniões (nn.60-61) e que “não há uma única via de solução (n.60). Mesmo assim “é certo que o sistema mundial é insustentável sob vários pontos de vista porque deixamos de pensar os fins do agir humano” (n.61) e nos perdemos na construção de meios destinados à acumulação ilimitada à custa da injustiça ecológica (degração dos ecossistemas) e da injustiça social (empobrecimento das populações). A humanidade simplesmente “defraudou a esperança divina” (n.61).
O desafio urgente, então, consiste em “proteger nossa casa comum” (n.13); e para isso precisamos, citando ao Papa João Paulo II : “de uma conversão ecológica global” (n.5); “uma cultura do cuidado que impregne toda a sociedade” (n.231).
Realizada dimensão do ver, se impõe agora a dimensão do julgar. Esse julgar é realizado por duas vertentes, uma científica e outra teológica.
Vejamos a científica. A encíclica dedica todo o terceiro capítulo na análise “da raiz humana da crise ecológica”(nn.101-136). Aqui o Papa se propõe analisar a tecnociência, sem preconceitos, acolhendo o que ela trouxe de“coisas preciosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano”(n. 103). Mas este não é o problema. Ela se independizou, submeteu a economia, a política e a natureza em vista da acumulação de bens materiais (cf. n.109). Ela parte de um pressuposto equivocado que é a “disponibilidade infinita dos bens do planeta” (n.106), quando sabemos que já encostamos nos limites físicos da Terra e grande parte dos bens e serviços não são renováveis. A tecnociência se tornou tecnocracia, uma verdadeira ditadura com sua lógica férrea de domínio sobre tudo e sobre todos (n.108).
A grande ilusão, hoje dominante, reside na crença de que com a tecnociência se podem resolver todos os problemas ecológicos. Essa é uma diligência enganosa porque “implica isolar as coisas que estão sempre conexas” (n.111). Na verdade, “tudo é relacionado” (n.117), “tudo está em relação”(n.120), uma afirmação que perpassa todo o texto da encíclica como um ritornelo, pois é um conceito-chave do novo paradigma contemporâneo. O grande limite da tecnocracia está no fato de “fragmentar os saberes e perder o sentido de totalidade (n.110)“. O pior é “não reconhecer o valor intrínseco de cada ser e até negar um peculiar valor do ser humano” (n.118).
O valor intrínseco de cada ser, por minúsculo que seja, é permanentemente enfatizado pela encíclica (n.69) , como o faz a Carta da Terra. Negando esse valor intrínseco estamos impedindo que “cada ser comunique a sua mensagem e dê glória a Deus” (n.33).
O desvio maior produzido pela tecnocracia é o antropocentrismo moderno. Seu pressuposto ilusório é que as coisas apenas possuem valor na medida em que se ordenam ao uso humano, esquecendo que sua existência vale por si mesmo (n.33). Se é verdade que tudo está em relação, então,”nós seres humanos somos unidos como irmãos e irmãs e nos unimos com terno afeto ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe Terra” (n.92). Como podemos pretender dominá-los e vê-los na ótica estreita da dominação por parte do ser humano?
Todas estas “virtudes ecológicas” (n.88) são perdidas pela vontade de poder como dominação dos outros e da natureza. Vivemos uma angustiante “perda do sentido da vida e da vontade de viver juntos” (n.110). Cita algumas vezes o teólogo italo-alemão Romano Guardini (1885-1968), um dos mais lidos nos meados do século passado e que escreveu um livro critico contra as pretensões da modernidade (n.83:Das Ende der Neuzeit, 1959).
A outra vertente do julgar é de cunho teológico. A encíclica reserva um bom espaço ao “Evangelho da Criação” (nn. 62-100). Parte justificando a contribuição das religiões e do cristianismo, pois sendo a crise global, cada instância deve, com o seu capital religioso, contribuir para o cuidado da Terra (n.62). Não insiste nas doutrinas mas na sabedoria presente nos vários caminhos espirituais. O cristianismo prefere falar de criação ao invés de natureza, pois “criação tem a ver com um projeto de amor de Deus” (n.76). Cita, mais de uma vez, um belo texto do livro da Sabedoria (21,24) onde aparece claro que “a criação é da ordem do amor” (n.77) e que Deus emerge como “o Senhor amante da vida” (Sab 11,26).
O texto se abre para uma visão evolucionista do universo, sem usar a palavra, mas fazendo um circunlóquio, referindo-se ao universo “composto por sistemas abertos que entram em comunhão uns com os outros” (n.79). Utiliza os principais textos que ligam Cristo encarnado e ressuscitado com o mundo e com todo o universo, tornando sagrada a matéria e toda a Terra (n.83). É neste contexto que cita P. Teilhard de Chardin (1881-1955, n. 83 nota 53) como precursor desta visão cósmica.
O fato de o Deus-Trindade ser relação de divinas Pessoas tem como consequência que todas as coisas em relação sejam ressonâncias da Trindade divina (n.240).
Citando o patriarca ecumênico Bartolomeu, da Igreja ortodoxa, “reconhece que os pecados contra a criação são pecados contra Deus” (n.7). Daí a urgência de uma conversão ecológica coletiva que refaça a harmonia perdida.
A encíclica conclui esta parte, acertadamente: ”a análise mostrou a necessidade de uma mudança de rumo… devemos sair da espiral de autodestruição em que nos estamos afundando” (n.163). Não se trata de uma reforma, mas, citando a Carta da Terra, de buscar “um novo começo” (n.207). A interdependência de todos com todos nos leva a pensar “num só mundo com um projeto comum”(n.164).
Já que a realidade apresenta múltiplos aspectos, todos intimamente relacionados, o Papa Francisco propõe uma “ecologia integral” que vai além da costumeira ecologia ambiental (n.137). Ela recobre todos os campos, o ambiental, o econômico, o social, o cultural, o espiritual e também a vida cotidiana (n. 147-148). Nunca esquece os pobres que testemunham também sua forma de ecologia humana e social, vivendo laços de pertença e de solidariedade de uns para com os outros (n.149).
O terceiro passo metodológico é o agir. Nesta parte, a encíclica se atém aos grandes temas da política internacional, nacional e local (nn.164-181). Sublinha a interdependência do social e do educacional com o ecológico e constata lamentavelmente os constrangimentos que o predomínio da tecnocracia traz, dificultando mudanças que refreiam a voracidade da acumulação e do consumo e que podem inaugurar o novo (n.141). Retoma o tema da economia e da política que devem servir ao bem comum e criar as condições de uma plenitude humana possível (n.189-198). Volta a insistir no diálogo entre a ciência e a religião, como vem sendo sugerido pelo grande biólogo Edward O.Wilson (cf. o livro A criação: como salvar a vida na Terra, 2008). Todas as religiões “devem buscar o cuidado da natureza e a defesa dos pobres” (n.201).
Ainda no aspecto do agir desafia a educação no sentido de criar a “cidadania ecológica” (n.211) e um novo estilo de vida, assentado sobre o cuidado, a compaixão, a sobriedade compartida, a aliança entre humanidade e o ambiente, pois ambos estão umbilicalmente ligados e a corresponsabilidade por tudo o que existe e vive e pelo nosso destino comum (nn.203-208).
Por fim, o momento do celebrar. A celebração se realiza num contexto de “conversão ecológica”(n.216) que implica uma “espiritualidade ecológica”(n.216). Esta deriva não tanto das doutrinas teológicas mas das motivações que a fé suscita para cuidar da casa comum e “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo” (216). Tal vivência é antes uma mística que mobiliza as pessoas a viverem o equilíbrio ecológico, “aquele interior consigo mesmo, aquele solidário com os outros, aquele natural com todos os seres vivos e aquele espiritual com Deus” (n.210). Aí aparece como verdadeiro que “o menos é mais” e que podemos ser felizes com o pouco.
No sentido de celebração “o mundo é mais que uma coisa a se resolver, é um mistério grandioso para ser contemplado na alegria e no louvor”(n.12).
O espírito terno e fraterno de São Francisco de Assis perpassa todo o texto da encíclica Laudato sí. A situação atual não significa uma tragédia anunciada, mas um desafio para cuidarmos da casa comum e uns dos outros. Há no texto leveza, poesia e alegria no Espírito e inabalável esperança de que se grande é a ameaça, maior ainda é a oportunidade de solução de nossos problemas ecológicos.
Termina, poeticamente com as palavras “Para além do sol”, dizendo: “caminhemos cantando. Que nossas lutas e nossas preocupações por esse planeta não nos tirem a alegria da esperança” (n.244).
Apraz-me terminar com as palavras finais da Carta da Terra, que o próprio Papa cita (n.207): “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade e pela intensificação no compromisso pela justiça e pela paz e pela alegre celebração da vida”.
[Este texto, publicado originalmente no blog de Leonardo Boff, será um capitulo de um livro em italiano “Curare la Terra”, Editrice EMI, Bologna 2015]

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Perspectivas para as CEBs no Pontificado de Francisco


Luis Miguel Modino*

A chegada do Papa Francisco levou a um impulso às Comunidades eclesiais de Base (CEBs). 
A partir desta nova situação eclesial, o Iser Assessoria e o Setor CEBs da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB organizaram um encontro de assessores e assessoras das CEBs do Brasil de 30 de julho a 1 de agosto de 2015.  Estiveram presentes mais de 50 pessoas, procedentes das diferentes regiões do país, para refletir juntos a partir do tema “Perspectivas para as CEBs no Pontificado do Papa Francisco”, sem deixar de lado os desafios que se apresentam na evangelização do mundo urbano, aspecto que constitui o tema central do próximo Intereclesial, a ser celebrado em Londrina, em janeiro de 2018.
 Os desafios do mundo urbano são grandes e complexos, assim como os da própria realidade eclesial. Dentro deste panorama socioeclesial, as CEBs se movem em uma perspectiva de esperança, que surge da proposta do Reino e a retomada de Francisco da visão eclesiológica do Vaticano II.
As CEBs se posicionam como instrumento necessário e eficaz na realização da missão, de que são destinatários principais a juventude, os empobrecidos e excluídos, as mulheres, e também na que se fazem participantes os movimentos populares, as pastorais sociais e outras igrejas, com quem querem assumir conjuntamente as causas dos pobres.  Foram compartilhadas diversas experiências de trabalho na periferia de algumas cidades brasileiras e com aqueles que vivem nas periferias existenciais. Tudo isso sem esquecer que vivemos em uma sociedade e participamos de uma linguagem onde o virtual exige cada vez mais protagonismo.
Neste sentido, Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo e ex-relatora da ONU em questões referentes ao direito à moradia digna, depois de analisar a realidade do mundo urbano, assinalava que as CEBs devem assumir o papel, a partir de seu compromisso com a libertação, de oferecer uma leitura alternativa do que se passa, que seja fonte de esperança e de utopia. E não só isso, devem também mostrar aos movimentos populares que não estão loucos nem sozinhos e que suas reivindicações são legítimas.
Da reflexão coletiva surge a necessidade de revitalizar as CEBs, revendo seus princípios orientadores e metodológicos, sendo necessário um diálogo com a complexa realidade do mundo urbano a partir de uma perspectiva bíblica, na qual devem se consolidar experiências de fé transformadoras, libertadoras e proféticas, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus de Nazaré, valorizando as expressões religiosas populares e elaborando um discurso contrário ao do mercado, que coloque o foco na solidariedade, na vida fraterna, na reconstrução das relações comunitárias, no macroecumenismo, na ecologia, na misericórdia e na escuta do clamor dos sofredores, assumindo o compromisso de lutar por direitos, que leve a reafirmar a centralidade dos pobres e a prática da justiça. Tudo isso baseado em uma articulação da mística, da presença, do testemunho e da profecia.
As CEBs são conscientes que o presente é um tempo de busca, em um ambiente em que o clericalismo e a autorreferencialidade eclesial levam a um sentimento de estar como ovelhas sem pastor. A isso se referia Francisco de Aquino Junior, sacerdote e professor de Teologia, que fez uma leitura histórico-teológica da vida da igreja nos últimos 50 anos, as consequências do modelo eclesial assumido desde a década de 80 e o empenho do Papa Francisco para mudar esta dinâmica, aspectos em que também insistiu o professor Sérgio Coutinho. Daí, o ser igreja em saída, que tanto incentiva o bispo de Roma, tem que partir de algumas perguntas: Para onde? Com quem? A favor de quem?
 As CEBs assumem que hoje são uma minoria teológica e eclesiológica, que não são a única expressão profética do Reino, que devem buscar o consenso, que não devem diluir o espírito, carisma e identidade dentro da realidade contemporânea e que são igreja pobre e dos pobres, colocando os excluídos, as minorias e o seguimento de Jesus de Nazaré como elementos centrais.
O caminho a seguir deve partir de um processo de formação de leigos e de leigas que animam a vida das comunidades, numa perspectiva bíblica e teológica que coloque a Palavra de Deus no centro da experiência comunitária, impulsionando os grupos de reflexão bíblica. Um desafio urgente é fazer-se presente nas bases com novas metodologias, levando em conta as experiências bem sucedidas de vida comunitária e aproveitando os ventos favoráveis chegados com Francisco e que têm permitido que voltem adquirir protagonismo as intuições eclesiológicas formuladas no Vaticano II e em Medellín.
As CEBs creem em uma eclesiologia participativa onde os conselhos pastorais sejam mais valorizados, comunitária, ministerial, laical, ecumênica, aspectos defendidos no Vaticano II. Insistem na necessária incorporação dos jovens e outros atores sociais, e no imperativo de abraçar o cuidado da Casa Comum e dos frágeis do mundo.
A partir destas idéias surgem algumas perguntas, como a formulada pelo sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira em sua intervenção, se as CEBs são ainda comunidades eclesiais de base, se não deixaram de ser aquilo que Pedro Casaldáliga destacava em 1989, as definindo como “a nova forma de toda a igreja ser”, para converter-se em um movimento espiritual a partir dos círculos bíblicos e da Teologia da Libertação. A socióloga Solange Rodrigues que, como Pedro faz parte da equipe de Iser Assessoria, se interrogava se tem sentido falar de CEBs em uma sociedade urbana, complexa e plural.
Na verdade, são muitos os elementos a serem refletidos e, ao mesmo tempo, são muitas as perguntas que surgem ao levar adiante um processo evangelizador baseado na centralidade dos pobres e na luta pela justiça. A isso buscam responder as CEBs do Brasil e  de tantos lugares do mundo, especialmente da América Latina. Tudo isso sem esquecer da letra da canção com que o encontro foi encerrado:  “Nossa alegria é saber que um dia todo este povo se libertará, pois Jesus Cristo é o Senhor do mundo, nossa esperança realizará”.

*Sacerdote diocesano de Madri desde 1998 e missionário na Diocese de Ruy Barbosa, Bahia, Brasil desde 2006.
Fonte: periodistadigital.com




terça-feira, 23 de junho de 2015

Curso do Rio 2015



Curso do Rio2015
Popular -  Ecumênico -  Participativo

Papel das Religiões na Sociedade de Hoje
Em favor de uma convivência ativa pela justiça e paz

31 de julho (inicia às 18 horas)
01 e 02 de agosto (dias inteiros)
Assessoria
Lusmarina Campos Garcia, pastora, Conic-RJ
Tobias Tomines Faria, educador na IFHEP
Geraldo Rocha, professor Unigranrio
Fabiano Romes Maciel - CEBI-RJ
Névio Fiorin, Iser Assessoria 

Local
Quadra da Paróquia Santa Bernadete
Av. dos Democráticos, 896
Higienópolis, Rio de Janeiro, RJ
Objetivos:
Oferecer formação pastoral e sociopolítica articulando estudo teórico e experiências concretas, fé e prática, fortalecendo a ação da base das comunidades religiosas do estado do Rio de Janeiro.
Capacitar pessoas para desenvolverem atividades que favoreçam o exercício da cidadania e incentivar as pessoas das comunidades a participarem como cidadãos e cidadãs, de forma organizada, na transformação da sociedade brasileira.
Promover maior articulação entre pessoas e grupos que atuam em diferentes religiões e igrejas, contextos sociais e regiões, com enriquecimento pessoal e desdobramentos posteriores diversos, como intercâmbio, parcerias e surgimento de novas atividades.
Destinatários:
O Curso se destina a pessoas, especialmente jovens, que atuam nas comunidades eclesiais, projetos comunitários e movimentos sociais.
Número de participantes: 100
Contribuição Solidária: R$ 15,00
Hospedagem: - Para aqueles que vêm de longe será providenciada hospedagem solidária.
Oficinas / Rodas de Conversa
Teatro Popular
Dança
A juventude quer viver
Negritude e Cidadania
Mídia e Redes Sociais
Atenção à Pessoa Idosa
FICHA DE INSCRIÇÃO – até 19 de julho (ou completarem as vagas)
Faça sua inscrição on-line:   http://www.formfacil.com/iserassessoria/inscricao
Informações: Telefone: (21) 2262.8162 -    crio@iserassessoria.org.br

Programação

Sexta-Feira – 31 de julho
......... – Arrumação do local, limpeza, ornamentação, definição de espaços para grupos
18:00 – Chegada do pessoal, credenciamento
19:00 – Jantar
19:30 – Momento de Mística & Espiritualidade (20’)
20:00 – Animação - Apresentação dos participantes - Apresentação do Curso
20:30 – VER – A religião na vida das pessoas
21:15 – Momento de espiritualidade para encerrar o dia (5’): oração + canto.
21:30 – Encerramento do dia

Sábado – 01 de agosto
08:00 – café da manhã
08:30 – Momento de Mística & Espiritualidade
09:00 – Aprofundamento do VER – Painel: O Papel das Religiões na Sociedade de hoje.
10:15 - Intervalo - lanche
10:30 - Debate
11:30 - Grupos
12:00 – Almoço
13:30 - Dinâmica e Animação
13:45 – Fechamento do VER


15:00 – Oficinas / Rodas de Conversa
17:45 – Momento de partilha do aprendizado nas oficinas
18:30 – Momento de Mística & Espiritualidade
19:00 – jantar
20:00 – Noite Cultural
21:30 – Encerramento do dia

Domingo – 02 de agosto
08:00 – café da manhã
08:30 – Momento de Mística & Espiritualidade
08:45 – JULGAR – Os profetas e a defesa da justiça social (uma reflexão para os dias de hoje a partir de Amós)
10:30 – Intervalo – lanche
10:45 – JULGAR (30’ cont.)
11:30 – AGIR - Encaminhamento para o trabalho de grupo para indicação de Pistas de Ação
12:30 – Almoço
13:30 – Dinâmica e Animação
14:00 – Plenário das Pistas de Ação e definição dos Compromissos a serem assumidos
15:00 – Celebração do Envio
15:30 – Encerramento

Informações: Telefone: (21) 2262.8162 crio@iserassessoria.org.br
Facebook: - familiacursodorio



      

Curso do Rio 2015

O Curso do Rio deste ano retoma a Campanha da Fraternidade que tem como tema “Igreja e Sociedade”. A idéia é estender esse tema para pensar o papel que um conjunto diverso de comunidades religiosas têm, em um mesmo contexto geográfico, no momento atual da nossa história.
As religiões têm hoje um papel importante na garantia do bem-comum, especialmente frente a brecha entre ricos e pobres e entre o ser humano e a natureza. As religiões podem contribuir para suturar as duas.
As religiões não servem (ou não deveria servir) para edificar muros, senão para construir pontes, estabelecer sempre relações novas.
O futuro do planeta está em jogo e não existem fronteiras, barreiras ou muros atrás dos quais podemos nos esconder para nos proteger dos efeitos da degradação ambiental e social. É hora de agir. Não há lugar para a globalização da indiferença, para a economia de exclusão ou para a cultura do desperdício.
O desafio atual está em formar comunidades religiosas plenamente engajadas nas lutas econômicas e sociais do mundo atual, que ajudem as pessoas a superar a visão do tudo é "meu-eu” para uma perspectiva mais solidária; comunidades que estendam a mão aos sofredores e marginalizados da sociedade; comunidades que levantem sua voz publicamente; comunidades proféticas, desafiadoras dos sistemas que oprimem e exploram os pobres; comunidades que praticam o que pregam, que vivem o que oram.
A mudança do foco na busca de visibilidade e sucesso público para um foco na justiça social pode abrir para as religiões oportunidades de diálogos e práticas conjuntas em favor de políticas públicas adequadas para todos, especialmente para os mais excluídos.





sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

14° Intereclesial: Carta da Ampliada Nacional das CEBs



14° Intereclesial: Carta da Ampliada Nacional das CEBs

Londrina, PR, acolherá em 2018 o 14º Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A Ampliada Nacional, que tem a missão de dinamizar a caminhada das CEBs no Brasil, escolheu como tema: “CEBs e os desafios no mundo urbano”.


Carta da Ampliada Nacional das CEBs

“Comunidade é força se lutarmos todos juntos, contra esse tal sistema que aflige todo mundo”(canto Trem das CEBs).

Nestas terras vermelhas do Paraná, na cidade de Londrina, fomos acolhidos e acolhidas com muito calor e amizade para o encontro da Ampliada Nacional das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Contamos com a presença de representantes dos 18 regionais da CNBB, assessores e assessoras e dos bispos Dom Giovane Pereira de Melo, Bispo de Tocantinópolis e Referencial das CEBs, Dom Manoel João Francisco, Bispo de Cornélio Procópio e representante do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) e Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Londrina.

Embalados pela mística libertadora, fomos convidados a fortalecer a unidade na diversidade de dons e serviços. Buscamos nos situar e fincar o pé na realidade local. Diante da complexidade do mundo urbano as Comunidades Eclesiais de Base, tem a missão de aprofundar a reflexão sobre as contradições da modernidade e apresentar caminhos de superação. Assim, o Deus da Vida nos convida a sermos fermento na massa, sinal de esperança e alimentar a espiritualidade de que um “outro mundo é possível”.

No segundo dia contamos coma presença de Dom Orlando Brandes, que presidiu a Celebração Eucarística. A partir das grandes regiões, debatemos sobre o papel da Ampliada Nacional que consiste em, fundamentalmente, dinamizar a caminhada das CEBs no Brasil. Com relação aos Intereclesiais, eles são momentos privilegiados de celebração e de troca de experiências. Para o 14º Intereclesial, definimos como tema “CEBs e os desafios no mundo urbano”, tendo como lema “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3,7). Para ampliar o debate contaremos com um texto-base, a ser elaborado. Foi-nos oportunizado conhecer os possíveis locais para a realização do 14º Intereclesial.

Destacamos o lançamento do livro “CEBs: Raízes e frutos ontem e hoje”, escrito por muitas mãos e organizado por Benedito Ferraro e Nelito Dornelas. O livro é resultado de reflexões pós 13º Intereclesial e é fundamental que todos os animadores e animadoras se apropriem dessas reflexões.

Aprofundamos os eixos temáticos que conduzirão o próximo Intereclesial. Colhemos sugestões para a elaboração do cartaz do 14º, onde os artistas populares serão convidados a colaborar nesta tarefa.

No intuito de manter a memória das CEBs, retomamos o Projeto “Memória e Caminhada” que é uma parceria com a Universidade Católica de Brasília (UCB), para arquivar e possibilitar pesquisa sobre a caminhada das CEBs no Brasil.

O encontro possibilitou o esclarecimento de dúvidas referente ao Abaixo Assinado pela Reforma Política. Reafirmamos nosso compromisso e empenho na coleta de assinaturas.

Empenhamo-nos nas questões práticas e encaminhamentos para a próxima ampliada.

Encerramos, com a celebração da Eucaristia e fomos enviados em missão para os nossos Regionais. Animados pela fé em Deus Libertador, e contando com a presença protetora de Nossa Senhora do Rocio, Padroeira do Paraná, acreditamos na vitória das flores e no bom perfume da primavera que espalhamos neste País!

Londrina, 25 de janeiro de 2015
Participantes da reunião da Ampliada Nacional das Comunidades Eclesiais de Base.






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